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Breve história da hidrologia médica
Fernando Costa Dias, reumatologista português.
Renascimento / Descobrimento / Idade Contemporânea
O renascimento nascido Itália no século XIV, só nos séculos XV e XVI chega à restante
Europa, onde para além da redescoberta dos antigos textos grego – romanos, se
desenvolve uma nova visão da vida
enfatizando a importância da individualidade, imaginação e inovação.
Em Portugal, por exemplo, pouca gente se tinha interrogado até então sobre as
condições em que algumas termas os doentes na falta de tanques escavavam poças onde
se colocavam indiscriminadamente e para se abrigarem improvisavam as mais indignas
barracas.
Pensa-se ter sido dentro desta visão miserabilista que D.Leonor de Lencastre, esposa
do Rei D.João II, ao viajar entre Óbidos e a Batalha decidiu mandar construir um
hospital à custa das suas jóias e tenças, num lugar que ficou a ser conhecido como de
Caldas da Rainha, ai fazendo instalar no lugar dos poços, tanques e a seu lado
enfermarias que davam para a igreja, permitindo desta forma aos doentes assistir
concomitantemente às cerimônias religiosas. Para si reservou uma piscina o “banho de
rainha”, que mais tarde foi utilizada pelos sarmosos (2).
Especialmente no que diz respeito à Hidrologia, muito dos conhecimentos desta antiga“ciência greco-latina” estavam guardados como já referido dentro dos claustros de
alguns mosteiros próximos de termas como Baden, Aix-la-Chapelle, Spa (Bélgica),
Vichy (celestinos), Bath U.K., (Aquae Sulis) e portanto não acessíveis à restante
comunidade intelectual da altura.
Um primeiro fato de grande importância e que veio a facilitar a difusão dos
conhecimentos foi a invenção da imprensa por Gutemberg (1400?-1468).
O primeiro documento escrito foi em 1473 (Pádua) com trabalhos de Foligno, Siena e
Thura de Castelo e em 1485 (Ferrara) com uma obra de Savovonarola como o título “De
Balneis et Thes”, considerado como o primeiro tratado de Balneoterapia.
Em 1553 (Veneza) editou-se obra “De Balneis, onina quae extant apud Grecos, Latinos
et Arabes” em que se referia a composição e efeitos de muitas águas minerais e em
1571 Andrea Baccius publicou a obra “De Thermis” onde se reconhecia igualmente as
características e efeitos das águas minerais, tendo sido considerada peça fundamental
na Hidrologia do seu tempo (14).
Para além de Itália, também numerosas outras publicações foram feitas pelo resto do
mundo, formando-se uma lista interminável de autores, mas de que se pode referir
particularmente Gabriel Fallopius, Mercuriale, Cesalpino, Colerus, Gesner, Bauhin,
Von R. Boly, Libau etc (14).
Um segundo fato de extrema importância para a época e com repercussões no campo
terapêutico, coloca-se com Paracelsus (1443?-1541), médico e químico alemão que deu
corpo ao Iaroquimismo, na qual se responsabilizava as perturbações de natureza
química externas ao próprio organismo como as responsáveis pelas enfermidades,
admitindo-se como única forma de as tratar o uso de substâncias químicas,
considerando dentro dos remédios naturais o “methodus bibendi et balneandi”. Esta
nova forma de pensamento veio contestar o conceito vigente na época do médico grego
Galeno que as atribuía a um desequilíbrio dos fluídos ou humores e só curáveis por
purgas, exsanguinamentos ou a utilização da água como elementos predominante desses
humores.
Paracelsus punha igualmente em oposição o conceito Alopático da época em que o
tratamento deveria ser realizado com drogas que produzissem efeitos contrários ao da
doença, com um novo conceito na qual as doenças podiam ser curadas por drogas que no
indivíduo saudável fossem capazes de produzir os mesmos efeitos patológicos e
sintomáticos da doença mas utilizadas em doses mínimas, sendo por isso sido
considerado como o percursor da Homeopatia.
Foi exactamente dentro do confronto entre escolas empíricas de diversos sistemas de
tratamento médico, com os alopatas como sistema oficial e os homeopatas como
novidades terapêutica que surgiu mais forte o renascimento da balneoterapia.
Com o novo espírito do renascimento mais sedimentado e com a capacidade de divulgação
dos trabalhos realizados, assiste-se a partir do Século XVIII a um multiplicidade de
publicações sobre as águas minerais e suas possíveis aplicações com fins terapêuticos
ou seja a Hidrologia médica, de que são exemplos o trabalho publicado em 1697 por
John Floyer “Inqueity into the Right Use of the Hot, Cold ant Temperate Bathis in
England” ou os trabalhos do alemão Signumd Hahn e seus filhos na utilização da água
fria no tratamento de múltiplas doenças (16).
Será a Wintrenitz titular da cadeira de Hidrologia em Viena que se deve o mérito de
transformar esta terapêutica, num estudo científico e experimental, utilizando para
tal os seus 10000 curistas que tratou no Instituto de Kaltenlentgeben, tendo escrito
mais de 200 artigos sobre o assunto, que foram referência nos países de língua
alemã.
O mesmo ia acontecendo noutros países como Itália com Gianini, Boreli, Baglivi,
Bellini, Cocchi, Cantoni e Vinaj, que praticaram estudos fisiológicos nos próprios,
ou em França com Magendie ao tentar precisar de forma experimental os estudos de
Schredel sobre o efeito da água fria nas cardiopatias valvulares e na tuberculose.
Referir todos os trabalhos seria impossível, contudo o início da hidrologia médica
experimental tinha começado e não iria parar.
Foi igualmente neste século que se iniciaram os estudos analíticos meticulosos das águas minerais de forma a enquadrar melhor a relação entre efeitos e composição deste
meio químico, de que se podem salientar os trabalhos e publicações de De Boyle,
Hoffmann, Berzelius, Liebig, Balard, etc.
Tudo isto é responsável pelo crescente prestígio do termalismo, sendo este cada vez
mais prescrito pela classe média e freqüentado por figuras importantes da época.
Em Portugal só no início do século XVIII (1726) se fazem referência no Aquilégio
Medicinal, ao primeiro inventário das águas minerais portuguesas no qual o Dr.
Francisco da Fonseca Henriques menciona a existência de 29 temas, algumas
completamente obscuras para além do conhecimento das populações vizinhas e outras
encerradas todo o ano com excepção do dia do seu santo padroeiro (2).
As mais freqüentadas são necessariamente as mais desenvolvidas em termos de
equipamento e condições sanitárias. O atraso dos estudos hidrotermais, a ausência de
análises e o empirismo tinham levado a que fossem atribuídas propriedades idênticas a águas com composição bastante diferentes.
No reinado de D.João V assiste-se à remodelação das estâncias já existentes das
Caldas da Rainha, Taipas, S.Pedro do Sul e do Gerês, seguindo-lhes no exemplo D.José
que inaugura o primeiro de catorze balneários que foram construídos no Estoril a
partir de 1788. O Marquês de Pombal manda vir da Itália o químico Domenico Vandelli
que efetua as primeiras análises minero-medicinais, nas Caldas da Rainha.
D.João VI manda edificar um balneário nas Caldas de S.Jorge e projeta a reconstrução
das termas de Chaves.
Um outro fato a destacar-se pela sua importância prende-se com os Descobrimentos, ao
se permitir novos contatos geográficos com civilizações do qual não havia anterior
conhecimento e demonstrativo de uma semelhante utilização das águas minerais com o
fim de preservar e recuperar a saúde.
As práticas da hidroterapia já faziam parte do conhecimento das primitivas
civilizações do nova Mundo nomeadamente em alguns rituais dos índios pré-colombianos.
Os historiadores apontam que a civilização Maia já utilizava a água termal desde o
século V a C e que tribos americanas do norte como as Sioux, Creddks, Chippewas,
Klamaths, etc.. recorriam igualmente às águas minerais e banhos de vapor seguidos de
aplicação de água fria, como meio de restabelecer a saúde, considerando o ritual do
banho com sudação possuidor de um potente efeito espiritual.
De forma semelhante na Europa do Norte, onde a influência romana não tinha penetrado
e a igreja havia demorado a estabelecer-se, já os Finlandeses e os Russos também
tinham desenvolvido banhos de vapor semelhantes, com origem nos costumes dos povos
nômadas da estepe eurasiática, (que já o utilizavam desde a idade dourada da
cultura grega), construindo para tal pequenas casas em madeiras ou em barro (saunas
finlandesas), com um assento junto das paredes e onde água aquecida sobre rochas
quentes, criava um denso vapor capaz de promover uma sudação intensa, sendo de
seguida tomado um banho com água tépida ou mesmo fria. Tudo isto nos faz relembrar
mais uma vez o ritual de alternância entre calor e frio de outros povos. Esta prática
ainda se mantém atual, apesar de atualmente ser utilizada a eletricidade ou o gás
como fonte de calor para se produzir o vapor.
Já no início da era Cristã, a China tinha conhecido um marcado desenvolvimento
médico, tendo sido o médico Chang Chung-King (195 d.C.) a escrever sobre febres,
julgando-se ter sido o primeiro autor a tratar certas “febres” com banhos frios.
Na cultura japonesa era dada grande importância social ao banho, pelo que quase todas
as casas tinham uma piscina de jardim ou uma banheira interior, onde o banho era
tomado inicialmente isolado e posteriormente partilhado em família.
Adicionalmente criaram-se vários balneários públicos onde água mineral ou apenas
quente permitia o banho familiar (aproximadamente 200 edifícios termais), costume
ainda atual a que não é estranho o fato do Japão como conjunto de ilhas vulcânicas
sobre o Anel de Fogo do Pacífico possuir emanações termais um pouco por todo o lado,
consideradas como dádivas dos deuses e da terra e fonte de freqüentes alusões
mitológicas.
A higiene pessoal e os rituais de purificação (corpo e espiritual) já faziam parte
integrante da religião Shinto e estavam bastante desenvolvidas no tempo em que
chegaram os primeiros exploradores Europeus ao Japão. Com a introdução do budismo em
552 d.C. associou-se a idéia da limpeza espiritual pela imersão, tendo-se criado
balneários juntos dos centro budistas.
Contudo o avanço extraordinário da Hidroterapia que se assiste na Europa nos Séculos
XVIII e XIX, são curiosamente devidos a pessoas sem qualquer formação médica.
Foram exemplo desse grande contributo a modesta família de lavradores da Silésia
(sudoeste da Polônia), Vinzenz Priessnitz (1799-1851) e outro seu companheiro de
escola Johan Schroth (1798-1856) ou de Heinrich F. Francke (1809-11848) (pseudônimo
J.H. Rausse) ou ainda do pároco da Baviera, Sebastian Kneipp (1812-1897) que
defensores da natureza como a melhor forma para devolver a saúde aos doentes e da
terapêutica nihilista (do latim nihil = nada) pouco intervencionista, fudaram
juntamente com tantos outros hidroteraputas múltiplos centros de “cura” de renome
internacional.
Priessnitz durante o ano de 1840 tratou com o duche frio aproximadamente 16.000
doentes oriundos de todo o mundo, dos quais fazia parte o próprio imperador
François-Joseph, que lhe deu a cobertura necessária para esta “prática ilegal da
medicina”. Apesar de todas as reticências e hostilidade dos clínicos seus
contemporâneos, conseguiu impor-se no público em geral, tendo surgido anexo ao
estabelecimento hidroterapêutico de grande qualidade em Graeffenberg, um luxuoso
hotel.
Os médicos franceses adaptaram este método de forma mais positiva que os seus colegas
alemães, tendo sido este método introduzido em Paris pelo Professor Fleury e
rapidamente expandido a outros centros, onde ainda hoje é praticado apesar de certas
modificações.
Assim na Europa dos séculos XVIII e XIX, o gosto pelos banhos volta a difundir-se
rapidamente um pouco à imagem dos tempos áureos e ancestrais da civilização
greco-romana tendo-se tornado um hábito a visita a estância termais minerais ou deáguas quentes, aos quais as facilidades de transporte nomeadamente com a
implementação da linha férrea e de novas estradas, se junta agora um conjunto
hoteleiro, comercial e de diversão importante que seguira muito de perto o
desenvolvimento das mesmas, integrando e aliando uma vez mais às virtudes
terapêuticas das águas, todo o esplendor da vida Social.
São exemplos desse rejuvenescimento em França Aix-les-Bains (antiga Aquae Gratianae),
Vichy (antiga terma romana), Evien, Plombières e Vittel; no Reino Unido-Bath (antiga
terma romana); na Alemanha – Baden-Baden (antiga terma romana), Kissingen e
Bad-Nauheim; EUA – Saragatoga e Nova York; Checolosváquia – Carlsbad; em Itália –
Abano, Montecatini, San Pellegrino, Viterbo; em Espanha – Cestona, La Toja, Mondariz,
na Bélgica Spa (antiga terma romana), etc... mas é sobretudo na antiga União
Soviética onde o termalismo adquire aspectos sociais, a que os benefícios políticos
não são alheios, que a hidroterapia retorna novamente um importante lugar no plano
terapêutico geral, construindo-se vários e grandes Centros Termais como o de
Sochi-Matresta, Krasnodar com 500.000 curistas/ano, sendo outro exemplo o japonês.
Progressivamente foi se sentindo a necessidade de que a hidroterapia fosse praticada
de uma forma rigorosa com indicações convincentes e métodos adaptados à situação
clínica pelo que para tal havia necessidade que essa informação fosse ministrada nas
Faculdades de Medicina.
Apoiado no relatório do Prof. Kussaul são fundadas várias clínicas hidroterapêuticas
em Berlin, Leipzig, Heidelberg, Breaslau, Iéna, Munique, etc.., onde foram convidados
professores que mantinham contato com o Prof. Winteinitz que em Viena já o vinha a
praticar a alguns anos. Juntou-se a este impulso de credibilização, o aparecimento de
jornais especializados na terapêutica com agentes físicos e em 1896 assiste-se em
Munique a um Congresso de Hidrologia (6).
A reserva dos médicos britânicos e dos Estados Unidos, só se interrompe com o impulso
dos Dr. Abram e Mary Putnam Jacobi em Nova York e Dr. Hiram Corson da Pensilvania,
conhecendo-se então um impulso considerável a partir de 1880. Em 1889 o Dr, Simon
Baruch professor da Universidade de Columbia preconiza o banho frio na febre tifóide
e mais tarde em 1893 o Prof. Draper da mesma universidade reconhece o efeito benéfico
nos centros nervosos, no restabelecimento do equilíbrio da circulação e no renovar
das funções orgânicas. A estes se seguiram outras figuras médicas atestando o
benefício da hidroterapia.
Foi também no século XVIII e em Inglaterra, que começaram a aparecer os primeiros
hospitais helio-marítimos, que aproveitavam a estadia à beira-mar com a ação do banho
marítimo, sedimentando-se os princípios da Talassoterapia já anteriormente
reconizados por Galeno e Avicena entre outros. O gosto crescente pela praia, que se
assistiu nos anos subsequentes contribuiu de alguma forma para um certo decréscimo da
prática termal, contudo esta tem vindo novamente a crescer de interesse.
A difusão dos conhecimentos entre os médicos dos centros termais, referenciando os
resultados das suas observações passou a efetuar-se em revistas e jornais
especializados, das quais a “Gazette des Eaix” mais tarde “Press Thermale et
Climatique” e os “Annales d’Hydrologie et de Climatologie” são exemplos bem
conhecidos, assim como se fundaram Sociedades de Hidrologia e de Climatologia Médica,
como a francesa que se reúne regularmente cada cinco anos a fim de se focarem os
pontos ainda controversos (6).
Em Portugal o início da época de ouro do termalismo dá-se com o virar do século XIX
para XX. Nos hábitos da gente fina e culta entra o de “ir a águas”, mas agora em vez
dos antigos votos piedosos, são o lazer e o divertimento as duas novas etapas da“cura”(nada do que já não tivesse sido anteriormente).
Como no estrangeiro, também a afluência da aristocracia e da burguesia às termas,
tornam estes centros palco da elegância e de um certo nível de bem estar, o que com a
escolha por parte das famílias reais de determinada estância, ditam o precioso
prestígio necessário para o seu desenvolvimento e manutenção, deixando para trás
outras menos lisonjeadas pela presença de uma tão afamada clientela.
Assim são exemplos desse prestígio o de Vidago que está na passagem do rei
D.Fernando II e da Condensa Edla e mais tarde de D.Luís, como as das Pedras Salgadas
com a presença de D.Maria Pia e mais tarde o rei D.Carlos que não dispensa igualmente
as caçadas nas suas redondezas (2).
S.Pedro do Sul já tinha sido bafejada desde o início do reinada portucalense por
D.Afonso Henriques, que como voto de recompensa dos seus efeitos, promoveu a
construção de um balneário novo, tendo também por lá passado mais tarde D.Dinis e
D.Manuel que a rebaptizou com o nome da rainha D.Amélia.
O nosso orgulho também não se fazia rogado, atrevendo-nos a comparar as nossas
estâncias termais as mais afamadas estâncias européias, assim Vidago é a Vichy ou a
Carlsbad portuguesa e o Estoril a Wiesbaden ou a Trouville (2).
Seguindo as pisadas da realeza, todo um conjunto “mui nobre e intelectual” de
curistas (políticos, altos funcionários, nobres, artistas literatos e estrangeiros de
renome) freqüentavam as termas remetendo porém a saúde a uma preocupação secundária.
Se com o final do século passado em voga estavam as Termas das Caldas da Rainha,
Vizela, Taipas ou Luso, já a maioria das outras estâncias despojadas da atenção da
corte e da fama, apenas na época termal dita mais “alta” despertavam do marasmo em
que habitualmente estavam envoltas.
Com o princípio do século XX as termas das Caldas da Rainha, Vizela, Gerês e Monção
são as mais concorridas em termos de freqüência, e para além do mercado interno
também algumas por fama (Caldas da Rainha) ou proximidade com Espanha (Gerês, Monção,
Monfortinho, Melgaço e Castelo de Vide) competem com o enorme fulgor das estâncias
estrangeiras.
O enorme fluxo de deficientes da 1º. Grande Guerra Mundial irá permitir o
desenvolvimento no início do século XX da prática do exercício na água ou seja a
hidrocinésioterapia.
Saradas as “feridas da guerra” a sociedade procura agora divertir-se como forma
eficiente de a esquecer, ignorando a ameaça de uma outra guerra que se perfila no
horizonte (2).
As termas fazem-se rodear de hotéis de primeira classe, casinos e parques românticos à boa maneira greco-romana, tornando-se em grandes centros de lazer e veraneio.
Vidago por exemplo em 1910, possui o magnífico Palace Hotel, o mais grandioso do seu
gênero na Europa, com 200 quartos, amplo salão de festas, simpáticas salas de leitura
e de jogos e todos os equipamentos requeridos pela sociedade da altura. Em Pedras
Salgadas por seu lado o polo dinamizador é constituído pelo Casino, que alia o
irresistível espírito do jogo ao do das festas dançantes, deixando para os mais
românticos e sonhadores uma casa de chá envolta em ternurentos jardins. No Luso a par
do imprescindível Casino tão à moda da época e ladeado pela frondosa mata do Buçaco
fruto do carinho e sabedoria a que os monges devotaram tanto do seu esforço,
rodeia-se de um luxuoso Palace Hotel ao mais alto nível mundial e ainda hoje uma
verdadeira “jóia da coroa”.
As modernas termas da Cúria dotadas de equipamento sofisticado, rodeiam-se de bons
hotéis oferecendo hospitalagem requintada e em número adequado para a época: o Palace
Hotel com 400 quartos e o Grande Hotel com 200 quartos.
Porém nem todas as termas seguiram este exemplo de apetrechamento urbanístico
condigno e/ou de construção de instalações balneárias codignas com a época capazes de
chamarem as atenções da burguesia, pelo que algumas vieram a atravessar e ainda
atravessam dificuldades, a que não é estranho a queda da Monarquia e as revoluções
proletárias que se seguiram, assim como a quebra dos apoios sociais oficialmente
reconhecidos entre 1973 a 1976 a esta onerosa prática, juntando de novo um grande
conjunto de dificuldades na difícil missão da sua saída do anonimato.
Se nos basearmos em dados de 1986, verificamos que em Portugal existiam nessa data 42
estâncias termais em funcionamento predominando as de águas sulfureas, com uma
freqüência de mais de 92.000 doentes 9cerca de 1% da população), com uma distribuição
uniforme por ambos os sexos, ligeiramente mais expressiva no sexo feminino (60%)
comparativamente ao sexo masculino (40%).
Contrariando alguns preconceitos estabelecidos, de que são apenas utilizadas pelos
velhos, verifica-se pelo contrário uma utilização preferencial do grupo etário com
maior atividade profissional (25-64 anos) (68%), a que se segue a população idosa
(26%).
A patologia mais freqüente em termos globais, é a Reumática com 35%, seguida da
Gastroenterológica com 26% e a das Vias Respiratórias com 19%, sendo menor a
percentagem da patologia Remnal e a das Vias urinárias com apenas 5%.
Dados mais recentes de 1994, dão uma freqüência global de 96.910 doentes/ano nas 41
termas em funcionamento, sendo uma fatia importante desta utilização dada pelas
Termas das Caldas de S.Pedro do Sul com 16.470, seguido das Caldas da Rainha com
7.778, Gerês com 6.088, Vizela com 5.925, Caldelas com 5.795, Monte Real com 5.737,
Chaves com 5.540 e Curia com 5.167 doentes.
Em Portugal com a excepção das Termas das Caldas de S.Pedro do Sul e das Caldas da
Rainha que funcionam todo o ano, as restantes estão abertas apenas de forma sazonal
aproximadamente entre Maio e Dezembro.
A nível europeu, em frança é superior a 600.000 o número de curistas que anualmente
utilizam o seu sistema termal (1,056% da população), na Itália mais de 1.500.000 (com
uma significativa percentagem de estrangeiros, o que dificulta o cálculo da
verdadeira percentagem na sua população), na Alemanha 3.500.000 (7% da população),
chegando-se ao surpreendente número de 10.000.000 na antiga URSS.
Mas não são só o número de utilizadores/ano e sua percentagem relativa, os únicos
indicadores do estado de “saúde” e especialmente da “qualidade” do termalismo, uma
vez que também tem que ser considerado todo o esforço na melhoria dos balneários
termais, em termos de habitabilidade (higiene e climatização interior), em termos do
atendimento médico diferenciado hidológico e de outras especialidades com ela afins
(Reumatologia, Ortopedia, Fisiatria, Otorrinolaringologia, Dermatologia,
Gastroentreologia, Pneumologia ou Alergologia) ou do quadro de técnicos de
balneoterapia que mais próximos estão do curista, a que se soma ainda um equipamento
técnico recente e cuidado, todos fatores integrantes e um crescente credibilização
desta prática quer junto dos curistas, quer junto da comunidade científica
nomeadamente a médica.
Em termos econômicos e para além do ganho em mão de obra local direta e indireta, se
poderão objetivar ganhos de outra ordem, como os sugeridos pelos estudos efetuados
por Cairie, Gaillard de Collogni e colaboradores em França, em que verificam a
existência de vantagem econômica para a própria Segurança Social Francesa com o
chamado “Termalismo Social”( de que também são exemplos para além de França, Itália,
Alemanha, Portugal, Bélgica, Polônia, Hungria, Checoslováquia, Jusgoslávia, Áustria,
etc..), uma vez que a troco de 1/100 no gasto com o doente nas termas, se obtém uma
redução em 30-40/1100 nas despesas médico-farmacêuticas e 230/100 no absentismo
laboral dos doentes beneficiados com o tratamento termal.
Tem sido pois nesta pitoresca evolução de altos e baixos em que a Hidrologia Médica
ramo da Terapêutica tem vivido, que se tem vindo a tentar uma incorporação plena na
evolução científica, através do seu apetrechamento com o material de balneoterapia
mais moderno e diferenciado, como na procura de uma Investigação Básica e Aplicada
que respeite os conceitos mais atuais, apoiando-se para isso em conhecimentos tão
dispares como os das Ciências Naturais, Física e Química, Fisiologia, Farmacologia,
etc.., tentando perder definitivamente grande parte do seu primitivo empirismo,
credibilizando-se e assentando cada vez mais em indicações e técnicas próprias. |